terça-feira, 30 de setembro de 2014
A beleza angustiante do inalcançável (II)
Acordas de um sonho estranho, o suor cola-te o cabelo ao rosto. Desejas voltar ao sonho, àquele olhar no café onde te pareceu que o tempo parou e a realidade foi sustida por um fio invisível e indivisível que ligava os vossos pensamentos. Porque é que não podia ser assim na realidade? Ele, sempre fechado nos seus pensamentos, que não se dignava a olhar para ti ou a dirigir-te mais do que simples cumprimentos fugazes.
Sabes que os olhos são o espelho da alma, mas ele esconde-os, desvia-os, como se tivesse algo a ocultar... Queres gritar-lhe para reagir. Queres pedir-lhe que olhe para ti, que se expresse. Mas como hás-de julgá-lo, se nem tu própria és capaz de o fazer?
Talvez seja tudo uma novela da tua imaginação. Afinal, ele tem companhia e parece feliz. A rapariga que mal conheces, mas que tanto invejas...Sabes que podias ser melhor para ele, se ele quisesse.
Questionas-te como seria. Passas serões acordada a saborear essa fantasia em que aparecem os dois, sozinhos. Não importa onde, o que importa é que se olham nos olhos, com uma intensidade eletrizante. Chegas a permitir-te ir mais longe, imaginando como seria a expressão dele enquanto estivessem finalmente juntos da forma que queres, aqueles olhos misteriosos abrir-se-iam numa expressão de prazer absoluto... Mas é aí que te lembras que ele já tem quem o olhe nesses momentos, provavelmente até a olha bem nos olhos e nem deve ter quaisquer problemas com isso. Dói tanto, que desvias o pensamento.
Mas não por muito tempo, pois cedo algum aroma que perceciones te vai fazer lembrar o seu perfume. Alguém que vires na rua vai recordar-te o seu jeito de andar. As mão que te entregarem o troco no supermercado, vão fazer-te lembrar as suas mãos, grandes mas macias (imaginas que sejam macias, nunca o pudeste comprovar). Alguma voz, no teu emprego, te vai lembrar a sua, quente e calma. A letra de uma música vai-te lembrar a vossa pseudo-história (que provavelmente só existe na tua cabeça). O enredo de um filme ou um livro podem ao início distrair-te, mas será somente a curto prazo.
Na verdade, já se tinha tornado tão repetitivo, tão constante, que a expetativa de algo acontecer já se desvanecera. A fogueira que ardia e te alentava, que te dava esperança num amanhã melhor, ou pelo menos diferente, já quase não tinha agora por onde arder, deixada às mãos negligentes do quotidiano sempre igual.
No entanto, precisamente na noite em que decidiste seguir em frente, ficar com quem estás e aceitar que é assim que será, a ironia e o teu subconsciente passam-te a perna, poem-te em mãos a ideia de um cenário tão diferente e tão apetecível.
Decides esperar mais um dia. Desta vez, impoes um limite a este devaneio. Se foi realmente um sinal, um dia bastará para que ele te olhe nos olhos e para que algo mude. Um dia. O último - antes disso, a incerteza.
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